Moçambique enfrenta um dos momentos mais críticos da sua segurança alimentar na última década, com cerca de 1,2 milhão de pessoas a necessitarem de intervenção urgente no período pós-colheitas de 2025. O dado, avançado pela mais recente avaliação da Classificação Integrada das Fases da Segurança Alimentar (IPC), revela não apenas uma crise conjuntural, mas fragilidades estruturais profundas que continuam a expor milhões de moçambicanos à vulnerabilidade alimentar.
A situação é particularmente grave em 47 distritos do país, sobretudo nas regiões Norte e Centro, áreas tradicionalmente consideradas produtivas do ponto de vista agrícola. O facto de a crise se manifestar num período pós-colheitas sublinha a magnitude do problema: mesmo após a principal época de produção, uma parte significativa da população não consegue assegurar níveis mínimos de consumo alimentar.
O que revelam os números da IPC
A análise da IPC, realizada em coordenação entre o Governo de Moçambique, parceiros nacionais, agências das Nações Unidas e organizações internacionais, classifica a gravidade da insegurança alimentar em cinco fases, que vão desde a segurança alimentar até à fome ou catástrofe humanitária.
Dos 1,2 milhão de moçambicanos identificados como necessitando de assistência urgente:
- Cerca de 125,7 mil pessoas encontram-se em Situação de Emergência (Fase 4), o segundo nível mais grave da escala;
- Aproximadamente 1,07 milhão estão em Situação de Crise (Fase 3), já com défices significativos no consumo alimentar;
- Paralelamente, 2,58 milhões de pessoas vivem em Situação de Stress Alimentar (Fase 2), um patamar que, sem apoio, pode rapidamente evoluir para níveis mais severos.
Estes números indicam que a insegurança alimentar em Moçambique não é um fenómeno isolado, mas sim um continuum que afecta diferentes camadas da população, exigindo respostas diferenciadas e sustentadas.
Uma crise alimentada por múltiplos factores
A actual crise resulta da conjugação de vários choques simultâneos. As alterações climáticas continuam a desempenhar um papel central, com eventos extremos cada vez mais frequentes, como secas prolongadas, cheias repentinas e ciclones tropicais, que comprometem a produção agrícola, destroem infra-estruturas e reduzem a capacidade de recuperação das comunidades rurais.
Ao mesmo tempo, a degradação dos solos, fenómeno que afecta mais de 45% das terras na África Austral, limita a produtividade agrícola e pecuária. Como sublinhou Patrice Talla, coordenador sub-regional da FAO para a África Austral, esta degradação não é apenas um problema ambiental, mas uma verdadeira crise de segurança alimentar e um entrave directo ao desenvolvimento económico, numa região onde mais de 60% da população depende da agricultura para sobreviver.
Em Moçambique, estes desafios climáticos e ambientais são agravados por factores socioeconómicos persistentes, como a pobreza estrutural, o acesso limitado a insumos agrícolas, a fraca mecanização, dificuldades de escoamento da produção e mercados vulneráveis a choques de preços.
Conflitos armados e deslocações forçadas
No Norte do país, em particular na província de Cabo Delgado, a insegurança alimentar está profundamente ligada ao conflito armado em curso. A intensificação de ataques por grupos armados não estatais tem provocado deslocações em massa, interrompendo ciclos agrícolas, destruindo meios de subsistência e pressionando comunidades anfitriãs já vulneráveis.
Segundo alertas anteriores do Programa Alimentar Mundial (PAM), apenas no primeiro semestre de 2025 mais de 48 mil pessoas foram deslocadas em Cabo Delgado, agravando a pressão sobre sistemas alimentares locais e aumentando a dependência de ajuda humanitária.
Estas deslocações forçadas criam um ciclo vicioso: populações sem acesso à terra produtiva tornam-se dependentes de assistência externa, enquanto a instabilidade contínua dificulta investimentos de longo prazo em agricultura resiliente e desenvolvimento rural.
Perspectivas de curto prazo: alívio limitado, riscos persistentes
O relatório da IPC aponta para uma possível melhoria entre Abril e Setembro de 2026, período em que o número de pessoas a necessitar de intervenção urgente poderá descer para cerca de 529 mil, essencialmente na Fase 3 da classificação. Esta projecção baseia-se em previsões de precipitação média ou acima da média, o que poderá aumentar a disponibilidade alimentar nos agregados familiares e contribuir para uma redução dos preços nos mercados locais.
No entanto, esta perspectiva positiva é frágil e altamente dependente das condições climáticas e da estabilidade social. Qualquer choque adicional — seja climático, económico ou de segurança — poderá rapidamente inverter esta tendência e empurrar milhares de famílias de volta para níveis mais severos de insegurança alimentar.
Para além da resposta de emergência
A actual crise evidencia a necessidade de Moçambique ir além das respostas de emergência e investir de forma consistente em soluções estruturais. Isto inclui:
- Reforço da agricultura resiliente às alterações climáticas;
- Programas de gestão sustentável dos solos e recursos hídricos;
- Apoio directo aos pequenos produtores com insumos, financiamento e acesso a mercados;
- Integração entre políticas de segurança alimentar, adaptação climática e estabilização das zonas afectadas por conflitos.
Sem uma abordagem integrada, o país continuará preso a ciclos recorrentes de crise, em que cada choque climático ou conflito local se traduz rapidamente em insegurança alimentar em larga escala.
Uma crise que exige prioridade nacional
A insegurança alimentar que afecta actualmente 1,2 milhão de moçambicanos não é apenas uma questão humanitária imediata. Trata-se de um desafio estratégico que condiciona o desenvolvimento económico, a estabilidade social e o futuro do país. A resposta exige coordenação entre o Estado, parceiros internacionais, sector privado e comunidades locais, com foco não apenas em salvar vidas hoje, mas em construir resiliência para amanhã.
LEIA TAMBEM AQUI: https://vozurbano.com/malaui-pondera-cortar-juros-apos-queda-da-inflacao/





