Entre Afungi e o alto mar, desenha-se uma frente energética que há duas décadas parecia improvável. As descobertas de gás natural na Bacia do Rovuma colocaram Moçambique no mapa geopolítico do GNL e abriram caminho para projectos avaliados em dezenas de milhares de milhões de dólares, com potencial para alterar profundamente a economia nacional.
Quanto gás existe?
Segundo estimativas do Instituto Nacional de Petróleo (INP), consolidadas em 2022, Moçambique dispõe de cerca de 179 triliões de pés cúbicos (Tcf) de gás, dos quais aproximadamente 133 Tcf são recuperáveis — técnica e economicamente viáveis de extrair. A maior parte destas reservas concentra-se nas Áreas 1 e 4 da Bacia do Rovuma, ao largo da província de Cabo Delgado.
Com estes números, o País posiciona-se entre os principais detentores de recursos de gás em África e entre os actores relevantes a nível global em termos de descobertas recentes.
Área 1: o projecto em terra em Afungi
A Área 1 é desenvolvida no âmbito do projecto Mozambique LNG, liderado pela TotalEnergies, que assumiu a operação após a saída da Anadarko. O complexo industrial está localizado na península de Afungi, distrito de Palma, e inclui infra-estruturas de liquefacção em terra, um “jetty” para navios metaneiros e planos para múltiplas linhas de produção.
O investimento inicial foi estimado em cerca de 20 mil milhões de dólares, suportado por um dos maiores financiamentos estruturados alguma vez realizados em África. Contudo, as obras foram suspensas em 2021, após ataques insurgentes em Cabo Delgado, levando à declaração de “força maior”. A retoma permanece condicionada a garantias de segurança e financeiras.
O plano prevê inicialmente duas linhas de liquefacção, com potencial de expansão até 14, caso avance um parque industrial associado para produção de derivados do gás.
Área 4: a aposta no mar
Na Área 4, operada pelo consórcio Mozambique Rovuma Venture — liderado pela Eni no mar e pela ExxonMobil em terra — o destaque vai para a plataforma flutuante Coral Sul FLNG.
A Coral Sul entrou em produção em Novembro de 2022 e tornou-se o primeiro projecto operacional da bacia do Rovuma. Em Abril de 2025, atingiu o marco de 100 carregamentos de GNL exportados, com ritmo aproximado de um carregamento por semana. A capacidade ronda 3,4 milhões de toneladas por ano.
O projecto Coral Norte, avaliado em 7,2 mil milhões de dólares, foi aprovado em 2025 e deverá entrar em produção em 2028, com capacidade estimada de 3,55 milhões de toneladas por ano (mtpa).
Biliões em jogo e decisões pendentes
Enquanto a Coral Sul consolida exportações, os projectos em terra aguardam decisões estratégicas. O Rovuma LNG (Área 4), sob liderança da ExxonMobil, ainda depende da Decisão Final de Investimento (FID).
No total, os megaprojectos do Rovuma representam um dos maiores esforços de capital alguma vez lançados no continente africano. A promessa de receitas fiscais, exportações e investimento directo estrangeiro é significativa, mas depende da estabilidade, previsibilidade regulatória e condições de mercado.
O potencial transformador
Se plenamente desenvolvidos, os projectos de GNL poderão:
- Gerar receitas fiscais e cambiais substanciais através de impostos, royalties e participação do Estado;
- Impulsionar infra-estruturas estratégicas como portos, estradas, aeroportos e energia;
- Criar um mercado doméstico de gás para produção de electricidade, fertilizantes e combustíveis;
- Estimular emprego directo e indirecto, além de dinamizar cadeias de fornecedores locais.
Os planos incluem ainda uma central eléctrica, uma refinaria de combustíveis líquidos e uma fábrica de fertilizantes, embora estas iniciativas permaneçam em fase de negociação.
Promessas e riscos
O potencial económico é elevado, mas os riscos também são reais: má gestão de receitas, dependência excessiva de matérias-primas, desigualdades regionais, impactos ambientais e deslocação de comunidades.
Para que o gás se torne um motor de desenvolvimento inclusivo, será determinante garantir transparência na gestão das receitas, políticas eficazes de conteúdo local, fiscalização ambiental rigorosa e estabilidade institucional.
Entre reservas gigantes e decisões pendentes, o GNL representa simultaneamente a maior promessa económica de Moçambique e um dos seus maiores testes de governação.






