A província de Cabo Delgado, no Norte de Moçambique, continua a enfrentar um dos conflitos armados mais prolongados da África Austral. De acordo com dados divulgados pela Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED), já foram contabilizadas pelo menos 6.432 mortes desde o início da insurgência armada, em Outubro de 2017.
Seis novos incidentes em apenas duas semanas
No mais recente relatório da organização — que cobre o período de 12 a 25 de Janeiro de 2026 — foram registados seis novos eventos violentos na província, envolvendo grupos extremistas associados ao chamado Estado Islâmico em Moçambique. Estes incidentes resultaram em pelo menos três mortos, elevando o número acumulado de vítimas ao longo de oito anos e meio de conflito.
Segundo o levantamento da ACLED, desde Outubro de 2017 foram registados 2.310 eventos violentos na província. Destes, 2.146 envolveram elementos identificados como pertencentes ao Estado Islâmico Moçambique (EIM), evidenciando o peso determinante deste grupo na dinâmica da insurgência.
Ataques sofisticados e ambiente operacional complexo
O relatório sublinha que, no período analisado, os insurgentes realizaram um ataque pouco comum com morteiros contra posições das forças ruandesas no distrito de Macomia. As tropas do Ruanda integram o contingente internacional destacado para apoiar as Forças de Defesa e Segurança de Moçambique no combate aos grupos armados.
Além dos confrontos directos, a ACLED destaca que o grupo insurgente tem concentrado esforços no reabastecimento logístico durante a época chuvosa, particularmente nas zonas costeiras, onde mantém relativa mobilidade através de embarcações.
O documento também refere a ocorrência de um ataque a uma mina de ouro na província do Niassa, bem como a actuação de um grupo criminoso no distrito de Metuge que se fez passar por insurgentes, ilustrando um cenário cada vez mais complexo e difuso, no qual actores armados distintos operam em simultâneo.
O início da insurgência e a escalada do conflito
A insurgência em Cabo Delgado teve início a 5 de Outubro de 2017, com ataques coordenados contra esquadras policiais no distrito de Mocímboa da Praia. Desde então, o conflito evoluiu de acções esporádicas para uma campanha prolongada, marcada por ataques a aldeias, infra-estruturas públicas e projectos económicos estratégicos.
Cabo Delgado é uma província rica em recursos naturais, incluindo grandes reservas de gás natural na Bacia do Rovuma, factor que adiciona uma dimensão geoeconómica ao conflito. A instabilidade provocou deslocações massivas de população, afectando centenas de milhares de pessoas ao longo dos anos.
A posição do Governo moçambicano
O Presidente da República, Daniel Chapo, afirmou recentemente que não descarta a via do diálogo como parte da estratégia para alcançar a paz no Norte do País. Em declarações feitas a 8 de Dezembro de 2025, à margem de uma cimeira internacional no Porto, o Chefe de Estado destacou que o objectivo principal é garantir estabilidade duradoura.
“O que nós queremos é a paz para o povo moçambicano”, declarou, recordando a experiência histórica de Moçambique na resolução de conflitos internos através do diálogo.
O Presidente evocou ainda o precedente dos Acordos Gerais de Paz, assinados em Roma a 4 de Outubro de 1992, que puseram fim à guerra civil entre o Governo e a Renamo após 16 anos de confrontos armados.
Impacto humanitário e desafios persistentes
Apesar dos esforços militares conjuntos envolvendo forças moçambicanas e contingentes internacionais, incluindo tropas ruandesas, o relatório da ACLED indica que a ameaça insurgente continua activa, ainda que com variações na intensidade dos ataques.
O ambiente de segurança permanece frágil, especialmente em zonas rurais e costeiras, onde as dificuldades logísticas e as condições meteorológicas adversas complicam operações militares e assistência humanitária.
A persistência de ataques, mesmo que de menor escala, demonstra que o conflito ainda não foi neutralizado de forma definitiva, exigindo uma combinação de estratégias militares, políticas e socioeconómicas.
Fonte
Os dados estatísticos e a análise sobre a evolução da violência em Cabo Delgado têm como base o mais recente relatório da Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED).
Informações adicionais e declarações oficiais foram divulgadas pela RTP Notícias.
A continuidade do acompanhamento por parte de organismos independentes e meios de comunicação internacionais revela a dimensão regional e global de um conflito que permanece como um dos maiores desafios de segurança e desenvolvimento em Moçambique. (vozurbana)
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