Decisão reacende debate sobre segurança, modelo energético e benefícios reais dos megaprojectos
A decisão do Reino Unido de abandonar o financiamento ao megaprojecto de gás natural no norte de Moçambique volta a colocar em causa o futuro de um dos maiores investimentos energéticos do país, num momento em que persistem dúvidas sobre segurança, impacto social e sustentabilidade económica.
O apoio financeiro, avaliado em mais de mil milhões de dólares, estava ligado ao projecto Mozambique LNG, liderado pela multinacional francesa TotalEnergies e suspenso desde 2021 após ataques armados que atingiram zonas próximas às operações.
Embora Londres justifique a retirada com base na proteção dos interesses dos contribuintes e na reavaliação de riscos, a decisão tem repercussões diretas para Moçambique, sobretudo numa região marcada por instabilidade, deslocações forçadas de comunidades e promessas de desenvolvimento ainda não concretizadas.
Segurança continua a ser o principal obstáculo
Mesmo com esforços militares regionais para estabilizar Cabo Delgado, analistas alertam que o ambiente de segurança continua frágil. O histórico recente de violência associada ao projecto levanta dúvidas sobre a viabilidade de retomar as operações em larga escala sem garantias duradouras de proteção para trabalhadores e populações locais.
Para muitos observadores, o recuo britânico reflete não apenas preocupações climáticas, mas também o receio de associar recursos públicos a um projecto inserido num contexto de conflito armado.
Promessas económicas sob escrutínio
Ao longo dos últimos anos, o megaprojecto foi apresentado como um motor de crescimento, emprego e desenvolvimento social. No entanto, organizações da sociedade civil questionam se os benefícios anunciados compensam os custos sociais e ambientais já registados.
Comunidades locais denunciaram deslocações compulsivas, perda de meios de subsistência e falta de inclusão nos ganhos económicos do gás. Com a saída de um financiador de peso, cresce a pressão para que o Governo moçambicano reavalie o modelo de exploração e a forma como os projectos estratégicos são negociados.
Energia fóssil ou transição verde?
decisão britânica também reforça um debate mais amplo: qual deve ser o caminho energético de Moçambique?
Enquanto defensores do gás apontam para receitas fiscais e exportações, ambientalistas defendem que o país deveria apostar de forma mais consistente em energias renováveis, aproveitando o potencial solar e hídrico.
Num contexto global de transição energética, o recuo de financiadores internacionais pode sinalizar mudanças profundas na forma como grandes projectos fósseis são avaliados e apoiados.
Um sinal de alerta
Mais do que um episódio isolado, a retirada do apoio do Reino Unido surge como um sinal de alerta para investidores, decisores políticos e a sociedade moçambicana. O futuro do gás no norte do país dependerá não apenas de financiamento, mas de segurança, transparência, respeito pelas comunidades e alinhamento com as tendências energéticas globais.
Enquanto isso, o projecto permanece envolto em incerteza, à espera de decisões que poderão redefinir o papel do gás no desenvolvimento de Moçambique.





